quinta-feira, 28 de julho de 2011

O solitário e os assassinados

(Por Ivan Silva)

"Ninguém me entende..."
Repetiu a si mesmo duas vezes.
Depois, saiu caminhando pelos bares da cidade, tomando umas que só muita gente sabe.
Até então, não tinha amigos, colegas e muito menos irmãos em sua companhia. Vivia só.
Se sentia só.
Sem se importar com aquelas pessoas que o chamavam o tempo todo (como se estivessem ardendo no fogo do inferno) pra passear, pra se distrair, saia e caminhava, escondido, sozinho, cada vez mais pelos bares da cidade.
Errado dia, percebeu que as pessoas que o chamavam estavam sempre todas ali, nos bares, tomando umas também!
"Ei! Senta aí! Vamos tomar uma pra refrescar as idéias!"
Ouviu,
ficou tremendo,
tremendo como uma velha doente que não foi atendida no posto de saúde.
Ao mesmo tempo sentiu uma puta vontade beber, mas o máximo que conseguia era chinelar.
Como um sem vergonha, correu e foi entrando na primeira porta unissex. Tcham: show de rock.
Aquilo parecia legal, soava noite inteira. Ainda mais com aqueles riffs abaladores de estrutura!
Era a quebradera que sentia. O corpo passava a ser esqueleto, os olhos visões históricas, as mãos porradas, os pés chutes nos bagos, até quem não tinha saco sentia. E o grito rolava no ar, e o rock n' roll não saia de cima, e a galera batia a cabeça, e o pulmão ficava vazio, e o peido comia, e o braço descia, e a porta unissex a polícia arrombava: Pá! Pá! Pá! Tá todo mundo em cana (com o cano da arma soltando fumaça depois da cusparada). Saindo pela porta dos fundos, escondido, sozinho, pôs-se nas ruas novamente, pisando no silêncio da morte que não conhecia o atraso...
"Ei! Senta aí! Vamos tomar umas pra refrescar as idéias!"
Tinha as palavras guardadas na cabeça...
O que fazer?!
E se eu tivesse ficado lá?!
"Pá! Pá! Pá! Tá todo mundo em cana!"
Aquilo não podia sair no jornal como um desaparecimento de pessoas...
Afinal, eram quantos corpos?!
Muitos, porra!
Muitos!
Decidiu não voltar. Sozinho ou não, seguiria em frente... quem tomava umas agora não caminhava mais pelos bares, só pelos butecos. Contava causos e tinha medo, medo de ser injusto...
"Será que alguém me entende?"

3 comentários:

Vi disse...

Incrível descrição da solitária boemia pós-moderna! Um retrato fiel do desperto no meio da massa: puro medo e assombro.
Me lembra muito uma mescla de Jack Kerouac com William Gibsom. Muito bom, brother!

Carpe diem!

Anna Alchuffi disse...

O bebads solitars, isso mesms que acontece com o povs.

Alexandre Mendes disse...

Solitário e incompreendido! Pobre sobrevivente...