(Por Ivan Silva)
A procura de um outro fazer, enojado com os quatro meses de recuperação
- e foram quase sete anos mexendo com venda de produtos... Decidi
tentar trabalhar numa atacadista. Claro que antes tinha que ouvir
propostas, passar por acompanhamento psicológico... O que pra mim não
fazia diferença nenhuma, pois estava decidido a encarar o serviço fosse
qual fosse as condições. Estava apenas deixando a vontade de não querer
mais ficar na mesma situação fluir. Situação estado de espírito mesmo,
depressão desgraçada. Aceitei sem pensar duas vezes. Entreguei meus
documentos já perguntando quando começava, com um alívio de quem esmagou
pimenta com os dedos, e antes de lavar as mãos instintivamente vai
limpar o nariz. No dia seguinte estava lá. Uns colegas de serviço no
bar, outros a fumar cigarro, fazendo piadas, cada um se descontraindo do
seu jeito, imaginei, procurando não interferir no que se passava. Foi o
portão começar abrir e os passos desataram, agitados. Dentro do galpão o
incessante movimento das mercadorias, enquanto eu aguardava instruções
do gerente que pagava sapo a dois encarregados em seu escritório.
Terminando, me chamou todo cheio de formalismos, pediu que eu me
sentasse na cadeira e continou. "Bom, é o seguinte, vou te explicar umas
coisas, aqui na empresa não sei se a psicóloga te falou, mês passado
por causa de brincadeira um funcionário esfaqueou o outro ali durante o
serviço, e você sabe, homem tem disso, dessas bobeiras, é chamar o outro
de filho da puta, corno, e por aí vai... Você tem problemas com
convivência? Beleza. Isso mesmo, o trabalho aqui é em equipe, somos uma
família. Outra coisa, o horário às vezes varia, acaba mais cedo, mais
tarde, mas é esse mesmo, das seis da tarde às seis da manhã, puxado, mas
tem janta, lanche, e não tem dessa de 'ah, eu não vou jantar, quando
chegar em casa eu janto' porque não tem quem agüenta! Todo mês a gente
dá vale refeição que já vem descontado no salário, tudo certo?! Então
vamos lá fora que vou te explicar o que tem que fazer." E lá estava eu,
executando o que um funcionário com mais tempo de firma dizia. No total
eram vinte e duas ruas (corredores enormes com prateleiras gigantes),
cheias de gente caminhando e separando embalagens de todo tipo de
fabricante. E carregue extrato de tomate, leite, doce, bolacha, cachaça,
sabão, água sanitária, soda caústica... produtos, produtos, produtos,
produtos...
Mais do que perdido no meio disso tudo larguei um
tipo de carrinho de mão que chamavam de burrinha e fui ajudar um dos
carregadores de caminhão. "Ó o cara, mal começou já vai fazer
carregamento", ouvia isso enquanto me matava mais um pouco. "Esse é bom
de serviço". Apesar da maldita dor nos rins, a sensação era de estar
contribuindo com a realização de algo importante. Minutos antes do
jantar e metade da turma corria pra bater o ponto, loucos de fome,
deixando a outra metade que continuava o serviço esperando seu horário:
cada metade tinha o seu. Esquecer de fazer isso todo dia não era raro.
Refeição farta. Uns apressavam os outros na fila, sempre com piadas
sobre a putaria do fim de semana, sobre quem alguém pegou, brigas,
casamento, chifres, bebedeiras... e o pessoal da cozinha ali, dando
resposta a marmanjo que pedia por uns pedaços a mais de carne. Já vinha
descontado no salário.
Depois da refeição era ficar no pátio...
normalmente eu sentava lá no chão mesmo e ficava quieto, fazendo a
digestão, enquanto a rapaziada assistia programas pelo celular,
conversava com a esposa ou falava das noitadas. Prazeres, sacanagens,
putas, vídeos caseiros, uma baforada de fumo queimado diluída na
escuridão. E assim ia, até o gerente aparecer na porta e lembrar que as
mercadorias estavam esperando. Quanta merda. Noites e noites passaram...
mudança de cargo, sonos perdidos, dor de cabeça, funcionários entrando
nos tapas por causa de disputas entre si, ônibus fundindo motor justo
com um motorista novato que querendo ou não levou a culpa. Na tarde
seguinte chega um caminhão desses baú pra transportar os funcionários,
com muitos risadas de insatisfação. Nesse dia me perguntei o porque da
barreira policial. Me lembrei dos navios negreiros...
O cargo
ocupado por mim nesses quase três meses já era o de separador. Separa
aqui, separa ali, "tira a burrinha do caminho se não os conferentes vão
enrrabar quem trabalha na rua um (setor de bolachas), anda logo que eu
tenho que pegar minha carga". Essa lenga-lenga todo dia não era rara. O
próprio encarregado não sabia o que estava fazendo desde o começo, e só
eu desconfiava da cilada? Minha vontade de fazer alguma coisa, viver,
experimentar, conhecer e até perceber alguns sabores antes não
percebidos, esquecidos, escondidos na memória pelos delírios da
infância, tinha se resumido a subir em prateleiras, no ponto mais alto
delas. Quanta merda. Salário, sesta básica, extrato de tomate, doce,
bolacha, cachaça, sabão, água sanitária, panetone... E foi novembro, e
foi dezembro, estava indo janeiro... e lá estava a família, a equipe,
reparando nas roupas, mostrando o que tinha comprado de novo, se
indignando com o salário dos funcionários mais antigos. Meu parceiro de
rua trabalhava feito um condenado, a mil por hora, de segunda à sábado
(dia de serviço cada vez mais frequente). Conversando com ele fiquei
sabendo que em seis anos de empresa nunca tinha pego um dia de folga,
coisa certa nesses sábados, pelos menos pra um separador. E eu ainda
cumprindo os meses de experiência, na semana passada já tinha pego.
Revoltante. Acabamos combinando dele pegar folga no sábado que viria,
tive que falar.
Encerrando expediente, o encarregado. "E aí, como
é? Amanhã o menino aqui vem e você tira o dia de folga, José?" Um longo
silêncio entalado... "Não, pode ser, não! É sim ou não".
E o que
veio no dia seguinte foi eu ralando, correndo sem parar, separando,
puxando burrinha, descendo o que faltava das prateleiras, trocando o que
foi separado e não estava nos pedidos, repondo... Nem um grão do
serviço feito durante seis anos... Nesse dia, fui o último a sair. Sabendo que ali não continuava mais.