quarta-feira, 15 de julho de 2009

Agulha do palheiro



Eu perco, perco
minhas palavras destrinchadas
no meu coração rasgado
Ainda outro dia
acho uma noite,
uma noite pequena demais
Ficção, fixação
guardo-a no meu bolso.
Sem noite, a lua fica.
Ainda mais
Eu a perco
Fico louco
Procuro tão pouco,
que a minha vontade
se esvaira
Perco a paciência,
daqui até ali
Encontro a distância
pequenina, nua
recém-nascida
deixo então,
que ela siga a sua vida!
A minha eu já tenho,
é inútil falar disso
acho o que eu acho
perco o que eu perco,
ao encontro,
é só um desdeixo o que eu deixo
Sou especialista, especialista em perder coisas
Não perco meu tempo,
Perco a minha vida,
tentando fazer as mãos mais lentas que os olhos.

domingo, 12 de julho de 2009

O silêncio que me fascina



Eu sou jovem, um jovem que nasceu em 1988. Por enquanto, enquanto não estou velho, tenho uma memória de repulsa.
Ainda me vejo no meio da rua juntando selos de cigarro como si fossem dinheiro, e em meio a multidão, do nada...apareceu...
Daiane, com seus cabelos louros meio cacheados e com seus olhos azuis feéricos, o seu silêncio amanhecido me fascinava, e o brilho dos seus olhos era difícil de se ver, pois seu semblante permanecia quase sempre abaixado, olhando para os nossos pés, ali, lado a lado. Com nossas mãos seguras, eu sentia o pulsar do seu coração na ponta dos dedos, era tudo muito siames.
Vinha-nos uma brisa fria e úmida, nós estávamos aquecidos.

Vinha-nos uma brisa fria e seca, chegava a tarde, passageira.

O pôr do sol nos rasgou ao meio, não pude mais sentir o pulsar do seu coração e os nossos batimentos perderam o ritmo sicrônico, a coragem que me passava antes eu perdi, passei então a usar uma sineta pra marcar o tempo. Nossas mãos seguraram despreendidamente o vento, os seus olhos azuis se misturaram ao amarelo fosco do sol e viraram o verde dos meus olhos. Eu fiquei com todo o meu medo só pra mim , e minha memória repulsa, acho que foi a única vez que eu esperei pela manhã.
Como era tudo muito siames, um de nós pode ter tido um termino de vida, eu só espero que não seja ela, é só isso que me bastaria.

O vazio é vazio pelo lado de fora



Quatro paredes, quatro cantos, só vejo a porta

Tenho tentado fugir do vazio
Por dentro me tranquei, num quartinho velho e empoeirado

Tenho medo da saída, mal espero então que o tempo me leve
enquanto isso, eu pelo menos fico aqui

com o eco da minha tosse.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Doce



Na véspera eu me declarei e fui apenas um ex-adorado
Eu me odiaria o resto dos dias sem me delatar
Acabei por odiar o ódio que surgiu do nada
Tentei então não ter rancor, não sei si consegui
As noites foram sem lua pra mim
e a única coisa que me prendia no chão eram os pés
Tentei enxergar a sua felicidade,
pra ver si me feria mais um pouco, isso eu consegui

Eu vi a sua felicidade transposta e maligna pra mim
Você cortou a minha garganta choca
e arrancou-me os olhos fora

Eu rolei no chão feito porco de ceva
enquanto tentava beber dos seus olhos
apenas lágrimas que fossem salgadas

Então eu senti o meu coração ser arrancado
frito, torrado e moído
para ser misturado no meio da borra de café

e eu só preferia ter te conhecido em outra época,
em outra vida, onde eu não fosse eu.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Tripudiado



O passsado está preso
preso pra sempre
aí está a simplicidade

Pro meu amor nunca tive poesia
e nunca irei de ter,
e assim como eu não tenho prosa,
não tenho visão

Arraquei-me os pedaços

Agora o silêncio dos gestos e dos sentimentos
traz a inquietude, e a inquietude
não passa de algo quieto.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Um pouco disso



Saudade perfeita ficou essa, cheia de imperfeições,
cheia de intenções, de desejos
cheia de ironia, cheia de amor
de ódio, dor e tédio

Cheia de respirações, de sorrisos
inspirações, cheia de distância
cheia de palavras ao vento

recheada torta
feita com sabor

torta de cereja com framboesa
maçã, pêra e jiló
jurubeba e chantilly

Sem ser cozida
ficou perfeita crua
e eu a engoli.

Próximo a ferrovia




Quebrei-me
Tenho em mim a meia-noite
e não saio disso
sou um relógio cuco
cego e louco pela escuridão, vagando
longe de um prego na parede
dentro de uma caixa velha de sapatos,
sapatos cujo os cadarços são de sacola
trançados por um menino
um menino que não sente a queima

Mas sente a teima, da maria fumaça ao maquinista
Queima, torra, tosta, distancia
chega a outros rumos

A menos de dois palmos a mim.